Reencantar é preciso! Por Chico Alencar

Essas foram as eleições do desencanto. As novas regras eleitorais reduziram o tempo de campanha e aprofundaram a desigualdade na distribuição do tempo na TV e rádio. Despolitizaram a disputa e obstaculizaram a renovação: os nomes mais conhecidos ficaram em posição privilegiada. Mais do mesmo.

Mas a essência da repulsa à política veio mesmo das práticas políticas degeneradas que tomaram conta de quase todos os partidos. A Lava Jato bem o demonstra, e a provável delação premiada de Marcelo Odebrecht, a ser homologada em breve, vai colocar todas as grandes legendas de vez na lama. Abstenções, votos nulos e em branco, ou em candidaturas enganosas, ‘antipolíticas’, foram as grandes vitoriosas.

O desafio para quem acredita na cidadania horizontal, na população mais consciente e em um processo eleitoral com igualdade de oportunidades para todos os postulantes, é dedicar-se, pedagogicamente, à reinvenção da política. Para distingui-la da politicagem e resgatar sua credibilidade. Não basta dizer, como fez Michel Temer, que é preciso “reformular eventuais costumes inadequados”. Reconheço que para quem presidiu o PMDB por 15 anos é difícil falar com clareza, denunciando o abjeto e bem mais que “inadequado” hábito de propinar, de roubar – histórico, continuado, e não “eventual”.

Ainda bem que o PSOL conseguiu, com sua generosa e jovial militância, trazer um pouco de luz ao pleito. Não fez alianças para ter mais tempo de tv e rádio, não abriu mão de estar nas ruas, apresentando propostas, agitando bandeiras, pedindo o voto consciente. Mais uma vez, não dependeu dos vultosos recursos que, para outros, parecem ser indispensáveis. Afirmou, na prática, que é possível fazer campanha pé no chão, olho no olho, com ideias e causas. E baratas!

Agora, depois de ampliar seu número de vereadores e prefeituras – lenta e criteriosamente -, chega ao 2º turno no Rio, em Belém e Sorocaba (SP) com cinco diretrizes gerais para mudar também o modo de governar: 1) democratizar a gestão, descentralizando a administração e chamando a população a participar nos conselhos de bairros; 2) envolver cada servidor público na honrosa tarefa de servir à população, respeitando seus direitos e valorizando seu saber e sua dedicação ao povo; 3) não prometer mundos sem fundos, detalhando, a partir do conhecimento do orçamento real da cidade, de onde virão os recursos para cada projeto; 4) dialogar com as Câmaras Municipais, não na base do tradicional toma lá dá cá, mas do debate aberto, acompanhado pela população, de cada política pública; 5) uma nova relação com as empresas privadas, não de submissão mas de demarcação dos diferentes papéis, e de regulação e controle onde houver concessão, sempre em defesa do interesse público.

 

Chico Alencar é deputado federal (PSOL/RJ).

 Artigo publicado no blog do Noblat.

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