Acrisia, hipocrisia e democracia. Por Chico Alencar

Acrisia é um termo médico do século XIX, usado quando o diagnóstico de um paciente está impreciso. Vem do grego e, no sentido etimológico, quer dizer "confusão, falta de discernimento, caráter indeciso de uma doença". Tudo a ver com a realidade brasileira atual.

Por outro lado, ainda no campo semântico, vale lembrar que toda crise – de ordem pessoal ou social – demanda um acrisolamento, isto é, uma depuração. Pede que, no cadinho dos conflitos em ebulição, os agentes políticos consigam tirar as sujeiras do "metal precioso" da nossa institucionalidade.

Valiosa é a nossa construção democrática, que necessita, nesta quadra crítica, de qualidades superiores. De avanços e não retrocessos. Isto só virá com uma refundação da República.

Que é bem mais que impedimento da presidenta, assunção do vice ou novas eleições presidenciais com as mesmas regras do jogo da governabilidade fisiológica que aprofundou a degradação.

Só uma cidadania ativa e horizontal impulsionaria uma reforma política que libertasse os partidos e o sistema eleitoral da prisão dos conglomerados econômicos; uma reforma tributária progressiva, que de fato gravasse os mais ricos; uma auditoria da dívida pública, como prevê a Constituição; uma constituinte, eleita com normas que assegurassem a igualdade de condições. Trata-se de redesenhar o molde institucional do país, democratizando os poderes, a cultura, a comunicação de massa.

Mas a história não tem o ritmo das nossas ansiedades. Sua dinâmica varia de acordo com as conjunturas e as forças sociais em confronto. Sérgio Buarque de Holanda falava do modus paulatim e do modus saltantim desta sábia senhora...

Paciência é preciso: reconheçamos que o melhor acrisolamento, o passo adiante para a nossa democracia ainda não tem acúmulo político que o torne alternativa imediata à crise. Ainda carecemos de ampla consciência, organização e mobilização populares para tanto. O cenário mais provável é termos mais do mesmo, na tradição continuísta do pacto pelo alto das oligarquias no poder.

Estamos vivendo uma transição entre o velho não sepultado e o novo que ainda não nasceu. Nesses intervalos turbulentos, de grande imprevisibilidade, surgem atores inconsistentes e oportunistas de todo o tipo. Delineia-se o costumeiro: mudar alguma coisa para que tudo, na essência, permaneça como está.

Porém, ainda que aquém do necessário horizonte histórico de um novo modelo político e econômico, atitudes imediatas devem ser tomadas. Elas exigem que se abandone o mar poluído de cumplicidades e hipocrisia em que se afogam as forças políticas dominantes – aí incluída a oposição conservadora, ávida por ter "a chave do cofre e a caneta de volta", como proclamou um líder da minoria que tem sido maioria na Câmara dos Deputados.

Para já, os partidos e as instâncias públicas precisam afastar de seus quadros e funções os acusados da Lava Jato. Não é possível tergiversar, sob pena de se consolidar a cínica gangsterização da política nacional. Os denunciados não podem ser ministros nem ocupar funções de mando no Parlamento, em mesas diretoras ou comissões. Como é notório, mesmo fora dos meios jurídicos, a situação de um investigado em inquérito é distinta da de um denunciado ou de um réu. Nesse caso, ele está formalmente acusado de ter praticado um crime, como o presidente da Câmara dos Deputados. O respeito à função pública impõe que não prossiga ali, até que todo o processo seja concluído.

Se nem esse pequeno passo de depuração for dado, estaremos condenando as instituições republicanas ao descrédito total.

 

Chico Alencar, 65, é deputado federal (PSOL/RJ) e professor de História.

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 31/08/2015.

Imprimir