Fala, Dilma! Por Chico Alencar

“Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma” (Fernando Pessoa)

Há quase meio século, a jovem Dilma Rousseff silenciou, altiva, diante dos que a torturavam na máquina estatal e detinham criminoso poder sobre sua vida. Agora, a presidente afastada Dilma Rousseff deveria dizer absolutamente tudo diante dos senadores que podem tirar definitivamente seu mandato.

Uma palavra sincera de Dilma, tanto quanto o corajoso silêncio diante dos seus algozes, guardadas as diferenças de época e situações, seria de grande valia para a História.

Dilma terá bastante tempo e imensa audiência para falar o que sabe sobre a engrenagem do poder – seus mecanismos, a hipocrisia de seus agentes, os interesses escusos embutidos na dinâmica partidária vigente. Dilma, despojada de quase tudo, tem liberdade para dizer o que pensa, o que viveu, como sentiu. Mesmo enredada na conjuntura, cumpre analisar o que há de corroído na estrutura sociopolítica brasileira.

Primeiramente, Dilma deveria explicar o histórico de sua relação com o PMDB de Michel Temer. PMDB cujo projeto de poder é estar sempre no poder, o partido do modo fisiológico de fazer política no Brasil, a legenda do toma-lá-dá-cá. PMDB de quem Dilma disse, há não muito tempo, que “só lhe dava alegrias”, acolitada por seu então vice: “só dá alegrias mesmo, pois apoia e ajuda o governo”. Por que se deu a ruptura? Quem traiu quem, e quando? Quais projetos distintos, afinal, entraram em conflito? Por que tantos de sua equipe seguem, agora, camaleônicos, fidelíssimos a seu traiçoeiro substituto?

Dilma deveria detalhar sua conturbada relação com Eduardo Cunha, líder do PMDB e depois presidente da Câmara. Quais os afagos dados a ele? É imperativo revelar o curto circuito da sua recusa ao pleito de Cunha em manter controle sobre Furnas e as concessões ou recusas às chantagens do instável aliado.

Ainda sobre Furnas, seria de alto interesse público a ex-ministra das Minas e Energia explicitar as denúncias de que Dimas Toledo, na sua diretoria (por indicação de Aécio Neves?), teria implementado um esquema de desvio de recursos. Desvios, por sinal, que Dilma, tida como muito centralizadora, tem a obrigação de dizer se e quando constatou. Também na Petrobras, onde colocou a funcionária de carreira e amiga fiel Graça Foster com a missão – frustrada – de desmontar esquemas de propina, “para que não ficasse pedra sobre pedra”.

Dilma deveria falar de sua relação com o próprio PT, do qual nunca foi liderança orgânica. De sua divergência com Lula, inclusive quanto à insistência para que ela convocasse Meirelles como ‘czar da economia’ em seu governo, no lugar de Levy, o da ortodoxia tucana. Dos meios de financiar campanha, fazendo com que um partido de trabalhadores dependa de ‘doações’ milionárias do alto empresariado. Recursos obtidos, como é da prática de quase todas as legendas, de forma tantas vezes obscura e ilícita – veja-se o PSDB novamente envolvido em escândalos desse tipo, agora em Goiás.

Dilma, autocrítica, devia reconhecer a contradição em não se implementar, no governo, o que se proclama na campanha – vide a precarização de direitos e a timidez na reforma agrária. E, pelo positivo, afirmar premência de uma reforma política que mude substancialmente o modo de construir partidos, disputar eleições e governar no Brasil. Ela, tão ciosa dos poderes presidencialistas, poderia analisar por que tornou-se disfuncional às forças dominantes na economia e no Legislativo, das quais foi aliada até há pouco. Detalhar a rota da coalizão à colisão...

Neste 29 de agosto, uma Dilma com palavra franca, crítica, inspirada por uma visão de destino para o Brasil, na busca de igualdade e democracia (inclusive econômica), deixaria um importante registro para a História. E embaralharia as cartas de um jogo de cartas marcadas, cujo desfecho tende a ser o de sempre: mais do mesmo.

 

Artigo publicado no blog do Noblat, em 27.08.2016.

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