O Brasil voltou a se olhar – e o mundo está olhando conosco (Por Sônia Guajajara)

A mobilização que se formou precisa permanecer. A luta está apenas começando. Temos muitos avanços a conquistar, e o apoio e a organização do povo serão decisivos para enfrentar as disputas no Congresso

5 nov 2026, 17:46 Tempo de leitura: 3 minutos, 8 segundos
O Brasil voltou a se olhar – e o mundo está olhando conosco (Por Sônia Guajajara)

A mobilização nas ruas e nas redes fez renascer uma força que nunca deixou de existir: a força do povo brasileiro para defender a democracia, a justiça e a soberania do nosso país. Em um momento em que tantas democracias enfrentam ameaças, o Brasil voltou a mostrar que a participação popular pode mudar os rumos da história.

Esse movimento também despertou grande interesse internacional. Nas últimas semanas, fui procurada por veículos de diferentes países para falar sobre o cenário brasileiro e os desafios que temos pela frente. Conversei com jornalistas do The Washington Post, do El País, do The Observer e da Mongabay, além de veículos da Argentina, da Noruega e da Espanha. Essa atenção revela que o que acontece no Brasil importa para o mundo: nossas escolhas sobre democracia, clima, territórios e recursos naturais atravessam fronteiras.

O Brasil tem servido de espelho porque reúne desafios que são globais. A defesa da floresta, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais está ligada ao futuro climático do planeta. E a defesa da soberania significa garantir que as decisões sobre nossas riquezas sejam tomadas aqui, com participação de quem vive nos territórios.

As terras raras e outros minerais estratégicos são uma dessas grandes batalhas. Eles são fundamentais para tecnologias do presente e do futuro, mas não podem se tornar motivo para repetir velhas práticas de exploração e violação de direitos. O Brasil precisa construir uma política que agregue valor no país, proteja o meio ambiente e respeite a consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e quilombolas. Desenvolvimento não pode ser decidido sem ouvir quem será diretamente afetado.

A mobilização que se formou precisa permanecer. A luta está apenas começando. Temos muitos avanços a conquistar, e o apoio e a organização do povo serão decisivos para enfrentar as disputas no Congresso. Nesta semana, vimos propostas importantes avançarem: na Câmara, comissões aprovaram medidas de proteção a povos indígenas e comunidades tradicionais atingidos por desastres e um plano para prevenir e enfrentar a violência contra crianças e adolescentes indígenas e quilombolas.

Também avançou uma proposta que amplia o acesso de povos indígenas, quilombolas e outros grupos tradicionais ao Fundo de Terras e da Reforma Agrária. No Senado, a Comissão de Direitos Humanos aprovou uma política nacional para integrar e fortalecer o atendimento e a proteção às mulheres em situação de violência; o texto ainda seguirá para outra comissão. São passos importantes, e cada proposta precisa continuar avançando até se tornar política efetiva.

Outra conquista fundamental é a criação do Programa Nacional das Medicinas Indígenas. O PRONAMI reconhece, valoriza e fortalece as medicinas indígenas e seus especialistas, contribuindo para preservar conhecimentos ancestrais e formas próprias de cuidado. Essa política deve respeitar a autonomia e a autodeterminação de cada povo e apoiar a transmissão desses saberes às novas gerações.

Esses avanços mostram que a luta coletiva produz resultados. Mas sabemos que nada está garantido sem participação, vigilância e pressão popular. O exército de pessoas que foi às ruas e ocupou as redes precisa seguir mobilizado: para defender direitos, cobrar compromissos e disputar os caminhos do país.

O Brasil voltou a mostrar ao mundo a força de seu povo. Agora, precisamos transformar essa energia em conquistas duradouras — com democracia, justiça social, respeito aos territórios e soberania. Nunca mais um Brasil sem nós.