Aldear a política é transformar o Brasil (por Sonia Guajajara)
Agora, o desafio é impedir retrocessos, consolidar essas políticas por meio de leis e assegurar que elas não dependam somente da vontade de um governo.
14 out 2026, 14:20 Tempo de leitura: 5 minutos, 35 segundos
Recebo minha reeleição como deputada federal por São Paulo com alegria, gratidão e um profundo senso de responsabilidade. Os votos que renovaram o nosso mandato representam uma construção coletiva, feita pelos povos indígenas, pelas mulheres, pela juventude, pelos movimentos sociais e por todas as pessoas que acreditam que a política brasileira precisa ser mais diversa, democrática e comprometida com a vida.
Volto à Câmara dos Deputados com a missão de defender os direitos constitucionais dos povos indígenas e transformar em políticas permanentes de Estado os avanços que ajudamos a construir. Durante minha passagem pelo Ministério dos Povos Indígenas, mostramos que é possível reconstruir a política indigenista, retomar demarcações, enfrentar invasões e colocar os povos originários no centro das respostas à emergência climática. Agora, o desafio é impedir retrocessos, consolidar essas políticas por meio de leis e assegurar que elas não dependam somente da vontade de um governo.
Minha reeleição, entretanto, acontece em meio a um resultado que exige uma análise crítica. As eleições de 2026 registraram recorde: 191 candidaturas indígenas, equivalentes a 0,93% das 20.560 candidaturas consideradas pelo Tribunal Superior Eleitoral para o cálculo da distribuição dos recursos públicos de campanha. Foi o maior número desde 2014, quando a Justiça Eleitoral passou a reunir dados sobre raça e cor. Também alcançamos a marca histórica de 75 candidaturas indígenas à Câmara dos Deputados. Estivemos presentes em 26 unidades da Federação, com candidaturas de 64 povos.
Mas o aumento das candidaturas ainda não se converteu, na mesma proporção, em mandatos. Apenas três pessoas autodeclaradas indígenas foram eleitas para a Câmara dos Deputados: eu, Juliana Cardoso e Paulo Guedes. Juntos, ocuparemos somente 0,6% das 513 cadeiras. Nas Assembleias Legislativas, foram eleitos quatro indígenas entre 1.059 parlamentares estaduais, aproximadamente 0,4% do total. Nenhuma pessoa autodeclarada indígena foi eleita para o Senado entre as 54 vagas disputadas.
O contraste é evidente. Temos mais lideranças indígenas dispostas a disputar os rumos do Brasil, mas continuamos encontrando enormes obstáculos para transformar essa mobilização em representação institucional. O problema não é a ausência de lideranças preparadas, de projetos políticos ou de apoio nos territórios. O problema está nas condições profundamente desiguais da disputa.
Uma candidatura indígena precisa, muitas vezes, percorrer territórios imensos, superar grandes distâncias e chegar a comunidades onde o deslocamento depende de rios, estradas precárias e diferentes meios de transporte. Apenas no Amazonas, aproximadamente 4 mil seções eleitorais dependem exclusivamente da navegação. Em alguns casos, o transporte das urnas supera 1.500 quilômetros e pode levar cerca de sete dias. A baixa conectividade em muitas comunidades também limita a divulgação das campanhas e o contato com os eleitores.
Há ainda a desigualdade dentro dos próprios partidos. O TSE assegurou para 2026 que as candidaturas indígenas tivessem direito a recursos dos fundos Partidário e Eleitoral e ao tempo de propaganda no rádio e na televisão de forma proporcional à sua participação. Foi uma conquista histórica da mobilização indígena. Entretanto, a existência da regra não garante equilíbrio na distribuição dos recursos entre os nomes apresentados por cada legenda. Os partidos ainda têm grande poder para definir quais candidaturas serão prioritárias, quanto cada uma receberá e em que momento o dinheiro chegará.
Essa desigualdade é ainda mais dura para as mulheres indígenas. Em 2026, tivemos 84 candidaturas de mulheres indígenas, cerca de 44% das 191 candidaturas. O número representa um avanço expressivo em relação a 2014, quando eram 29, mas uma pequena redução diante das 85 candidaturas registradas em 2022. Entre os sete indígenas eleitos para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas, apenas três são mulheres.
As mulheres indígenas enfrentam simultaneamente o racismo, o machismo e a violência política. São atacadas pela origem, pela aparência, pela forma de falar e simplesmente por ocuparem espaços que historicamente nos foram negados. Mesmo assim, representam quase metade das candidaturas indígenas e estão entre as principais lideranças das mobilizações em defesa dos territórios, das águas, das florestas e dos direitos sociais.
Precisamos avançar em soluções concretas. Debater mecanismos efetivos de reserva de cadeiras nos parlamentos, capazes de enfrentar uma exclusão política acumulada ao longo de mais de cinco séculos. Os partidos precisam garantir financiamento adequado desde o início da campanha, formação política, equipes técnicas e participação indígena nos diretórios e nas instâncias que definem as estratégias eleitorais e a distribuição dos recursos.
Fora do Congresso, precisamos fortalecer as organizações indígenas, preparar candidaturas com antecedência, consolidar redes permanentes de comunicação e apoio jurídico, formar novas lideranças e ampliar o diálogo com a sociedade. As campanhas indígenas não podem começar apenas no período eleitoral. Precisamos construir bases políticas duradouras nos territórios, nas cidades, nas universidades, nos movimentos sociais e nas periferias.
O resultado de 2026 acende um sinal de alerta, mas não representa um recuo da nossa mobilização. Pelo contrário: saímos desta eleição com 191 candidaturas, presentes em 26 unidades da Federação e representando 64 povos. Esses números demonstram que existe uma força política indígena crescente, organizada e disposta a participar das decisões sobre o futuro do Brasil.
O projeto de aldear a política continua. Vamos ampliar a participação das mulheres e da juventude e disputar não apenas os cargos diretamente ligados às políticas indígenas, mas todos os espaços de poder. Não queremos ocupar somente o lugar que decidiram reservar para nós. Queremos participar das decisões sobre economia, clima, educação, saúde, relações internacionais, soberania e democracia.
Por isso, a defesa dos povos indígenas, da democracia, da floresta e do clima exige uma decisão clara neste segundo turno. Um Congresso mais conservador torna ainda mais importante termos um governo disposto a dialogar com os movimentos sociais e a cumprir a Constituição.
O caminho é longo, mas já demonstramos que sabemos transformar resistência em mobilização, mobilização em candidaturas e candidaturas em força política. Seguiremos dentro e fora do Congresso. Não vamos recuar. Vamos continuar aldeando a política, porque aldear a política não é um projeto apenas para os povos indígenas: é um projeto para democratizar e proteger o Brasil.
Nunca mais um Brasil sem nós!