Deputada Célia Xakriabá denuncia uso de dinheiro da reparação de Mariana para financiar pedágios em Minas

"Utilizar recursos da reparação para financiar uma concessão com pedágios representa uma distorção completa do conceito de justiça para os atingidos"

2 jul 2026, 13:53 Tempo de leitura: 2 minutos, 33 segundos
Deputada Célia Xakriabá denuncia uso de dinheiro da reparação de Mariana para financiar pedágios em Minas

A deputada federal Célia Xakriabá criticou o uso de recursos do acordo de reparação da tragédia de Mariana para financiar a concessão rodoviária que vai instalar quatro pedágios entre Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana. Para a parlamentar, a medida transforma o dinheiro da reparação em cobrança contra a própria população atingida pelo crime ambiental.

O projeto prevê a concessão de cerca de 190 quilômetros de rodovias entre Nova Lima e Rio Casca, incluindo trechos da BR-356, MG-262 e MG-329, sob responsabilidade da concessionária Rota da Liberdade. O contrato terá duração de 30 anos e estima investimentos de aproximadamente R$ 5 bilhões em obras, manutenção e operação das estradas.

A cobrança será feita por meio do sistema “free flow”, sem cancelas físicas, com tarifas mínimas a partir de R$ 5,58 e custo total que pode ultrapassar R$ 75 no trecho completo entre Belo Horizonte e Mariana/Ouro Preto.

O ponto mais questionado, porém, é a origem de parte dos recursos utilizados no projeto. Segundo o Governo de Minas Gerais, cerca de R$ 1,7 bilhão do Novo Acordo de Reparação do Rio Doce será destinado às obras e à viabilização da concessão da chamada “Via Liberdade”.

O acordo foi firmado em 2024 entre as mineradoras Samarco, Vale e BHP e instituições públicas brasileiras como forma de reparação pelo rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana em 2015. A tragédia matou 19 pessoas, destruiu comunidades inteiras e contaminou a bacia do Rio Doce, sendo considerada o maior crime ambiental da história do Brasil.

Para Célia Xakriabá, utilizar recursos da reparação para financiar uma concessão com pedágios representa uma distorção completa do conceito de justiça para os atingidos.

“O dinheiro que era para reparar o crime virou pedágio para cobrar de quem sofreu o crime”, afirmou a deputada.

A parlamentar também questionou o simbolismo do nome dado à concessionária responsável pela operação.

“A estrada da mineração agora ganha o nome de Rota da Liberdade. Mas liberdade para quem?”, declarou.

As críticas não partem apenas dos movimentos populares e parlamentares. O prefeito de Mariana, Juliano Duarte, também classificou a cobrança dos pedágios como injusta para a população da região atingida pela tragédia. Já movimentos de atingidos e organizações sociais denunciam que a utilização desses recursos atende mais aos interesses logísticos da mineração do que às necessidades reais das comunidades afetadas.

Para Célia Xakriabá, os territórios atingidos seguem sendo tratados como zonas de sacrifício em nome de um modelo econômico baseado na exploração mineral.

“Destruir não é progresso. Reparação que cobra do destruído não é reparação, é deboche”, afirmou.

A deputada disse que seguirá acompanhando o processo de concessão e cobrando transparência sobre a aplicação dos recursos do acordo de reparação.

“Minas Gerais precisa saber quem está pagando essa conta.”