Feirão das negociatas. Por Chico Alencar

Até abril, parlamentar que quiser mudar de partido pode. A lei garante, e não precisa justificar. Para muitos que aproveitarão essa “janela de transferências”, não ter que dar razões vem a calhar. Por mais que isso seja a negação total da vida partidária.

Alguns já estão no troca-troca para não carregar o ônus do envolvimento de suas legendas em rumorosos casos de corrupção. Corrupção assimilada como “natural” pela totalidade das siglas atingidas, que fazem “cara de paisagem”. Os partidos que acumulam denúncias — quase todos os grandes e médios — abriram procedimentos em suas comissões de ética? Desligaram filiados que estão presos, até que tudo se apure? Nada fizeram, pois temem que a rede do conluio espúrio público-privado seja revelada pelos que foram pegos com a boca na botija. Apostam na omertà, regra da máfia que impõe silêncio a todos os sócios.

Ainda assim, entendem os trânsfugas da hora que é preciso trocar a moldura para maquiar a imagem e garantir reeleição. Um paradoxo: vários estão trocando seis por meia dúzia. Deixam o investigadíssimo MDB e rumam para o PP, por exemplo. PP que, no caso do petrolão, é o partido que sofre mais acusações. Os que optam pelo sujo, deixando o mal lavado, fazem avaliações a partir de cenários eleitorais regionais. A mudança de camisa não expressa gesto de indignação ética ou vontade sincera de corrigir rumos.

Outros aproveitam a “janela” por motivos mais rebaixados ainda: negociam com os chefes das legendas para as quais pretendem se transferir o montante que receberão para suas futuras campanhas. Dinheiro oriundo do Fundo Eleitoral criado pelo Congresso Nacional. Este irá, em 95%, para oito partidos. Quase todos sem rigor doutrinário, sem ideologia para viver.

São somas milionárias, que permitem que um candidato a presidente gaste até R$ 70 milhões, um candidato a governador de R$ 2,8 a 21 milhões, um candidato ao Senado até R$ 5,6 milhões, um postulante à Câmara Federal R$ 2,5 milhões e às assembleias estaduais R$ 1 milhão. As campanhas continuarão milionárias, só que agora com recursos públicos.

Esse leilão no mundo parlamentar lembra o mercado do futebol: os “clubes” que mais pagarem terão os elencos mais numerosos. Quanto mais “craque” em votos, mais dinheiro próximo do teto de gastos está sendo prometido. É a mercantilização total da política institucional, com amparo legal!

Mas o escondido poderá ser revelado. A mesma lei que abriu essa oportunidade para o oportunismo determina que os recursos utilizados na campanha tenham sejam peticionados, por escrito, quando as candidaturas forem oficializadas. Os “contratos de gaveta” de agora, que possam ter definido novas opções partidárias, serão conhecidos...

Tempos de sinais trocados: quanto mais parlamentares um partido conquistar, menos credibilidade terá.

 

Artigo publicado no jornal O Globo, em 11 de março de 2018.

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