Os dejetos políticos e midiáticos da tragédia de Mariana (MG). Dep Ivan Valente

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados(as) e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham,

Os responsáveis pelo mar de lama e dejetos que correm de Minas Gerais pro Espírito Santo contam com a ajuda valiosa da mídia de massa e de políticos de diversas esferas. Assim, tentam de forma vergonhosa instalar no imaginário nacional a ideia de que a tragédia socioambiental em Mariana tem como responsável maior algum agente abstrato que não seja a Vale e a anglo-australiana BHP, empresas bilionárias que estão “generosamente” cedendo 1 salário mínimo por família atingida pelo rompimento das duas barragens!!!

A tentativa de soterrar esse episódio com consequências desastrosas pro futuro de uma vasta região precisa ser denunciada! Absolutamente vergonhosa a cobertura dos principais meios de comunicação que tentam a todo instante contemplar os interesses da Vale, uma gigante também do setor publicitário. Essa operação de guerra pra ocultar os responsáveis, infelizmente não é acompanhada por um esforço do mesmo tamanho para minimizar o sofrimento dos atingidos.

O jornalista Alceu Castilho deu nome aos bois. Não aos bois soterrados e afogados pela lama tóxica, mas aos bois que controlam a Vale cujos interesses a mídia corporativista protege! Cujo assunto é um tabu na imprensa nacional por ela ter sido vendida a preço de banana pelo governo FHC!

(Leia aqui: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2015/11/09/a-lama-da-samarco-e-o-jornalismo-que-nao-da-nome-aos-bois/).

A empresa é controlada pela Valepar, com 53,9% do capital votante (1/3 do capital total). Com 5,3% para o governo federal, 5,3% para o BNDESpar, 14,8% para investidores brasileiros, 16,9% na Bovespa e 46,2% de investidores estrangeiros (este percentual cai para 33,9% no caso do capital total). De qualquer forma já temos que a Samarco – com a metade anglo-australiana e com esses investidores estrangeiros da Vale – tem mais da metade de suas ações nas mãos de estrangeiros.

E quem manda na Valepar, que controla a Vale? 1) Fundos de investimentos administrados pela Previ, com 49% das ações; 2) A Bradespar, do Bradesco, com 17,4%; 3) A multinacional Mitsui, um dos maiores conglomerados japoneses, de bancos à petroquímica, com tentáculos na Sony, Yamaha, Toyota, com 15%; 4) O BNDESpar, com 9,5. (Ignoremos os 0,03% da Elétron, do Opportunity e seu onipresente Daniel Dantas. E registremos que, com a Mitsui, aumenta ainda mais a participação de estrangeiros na Samarco).

Leia mais sobre os negócios da Vale: http://apublica.org/2012/11/quem-lucra-vale/

Alguém imagina, após o desastre em Fukushima, o Primeiro-Ministro japonês indo até a sede da empresa que administra a usina nuclear, e de lá conceder uma entrevista dizendo que a empresa tem feito a sua parte para amenizar os danos às vítimas e ao meio-ambiente? Alguém imagina o Obama na sede da Exxon, assegurando que a empresa está tomando todas as atitudes? Depois do megavazamento de petróleo no Golfo do México? O governador Fernando Pimentel se prestou a isso se transformando em relações públicas da empresa! 

 

 Novo Código de Mineração aumentará tragédias

Em paralelo a tudo isto, corre nesta Casa uma tentativa de criar um novo marco regulatório para o setor da mineração. Este Novo Código da Mineração está sendo tocado por deputados financiados pelo setor e que assumem o papel de representantes dos interesses das grandes empresas, que exigem em troca do robusto financiamento de suas campanhas eleitorais menos regulação ambiental e trabalhista e maior flexibilização das regras de segurança no que tange o entorno dessas atividades e possíveis atingidos. 

Vide regra essas normas já não são todas aplicadas hoje. O próprio Relatório Anual de Sustentabilidade da Samarco aponta aumento sistemático de produção de minério de ferro sem nenhum reforço nas barragens, crescendo o volume de rejeitos depositados. Só agora a Samarco instalou sirenes para avisar a população de possíveis emergências, uma mesquinharia que custou pelo menos dezenas de vidas humanas.

A mineração é um dos setores mais predatórios do planeta e também um dos grandes financiadores de políticos para que seus interesses sejam defendidos no Congresso Nacional. Dois de seus principais aliados na Câmara, que cuidam dos interesses dessas empresas são o próprio Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e o relator do novo código, Leonardo Quintão (PMDB/MG) que teve mais de 40% de sua campanha financiada pelo setor.

Havia até então um enorme interesse em acelerar a tramitação do documento que promete ser muitíssimo pior que o já terrível Novo Código Florestal. Resta saber agora se após a tragédia de Mariana (MG) esta cruzada pela ampliação da mineração e redução dos direitos pelos atingidos por esta atividade continuará com a mesma força de antes. 

Vidas se perderam e são encaradas como mero “dano colateral”. E sabem senhoras e senhores deputados a que custo? A 50 dólares a tonelada de minério extraído para virar um arranha-céu em alguma parte do mundo! Os responsáveis devem ser punidos.

Reafirmamos nossa solidariedade com os familiares das vítimas e nosso compromisso em continuar lutando pela regulação pública e democrática da atividade de mineração no Brasil, orientados pela defesa do meio ambiente e da vida.

 

Sala das Sessões, 10 de novembro de 2015.

 

Ivan Valente

Deputado Federal, PSOL/SP

 

 

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