A intolerância nas redes sociais e a razão social do racismo no Brasil

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados(as) e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham,

A parte civilizada de nossa sociedade, que acreditamos ser a maioria da população, tem assistido com indignação as manifestações de racismo, ódio e intolerância que tem se proliferado nas redes sociais.

Os ataques racistas contra personalidades se tornaram recorrentes e acabaram dando maior visibilidade para o problema. Ao aproveitarmos a ocasião para externar nossa total solidariedade à atriz Taís Araújo e repudiar mais um ato racista, queremos ressaltar que o ódio racista não se limita apenas a pessoas mais conhecidas e se manifesta no dia a dia do país, enquanto traço nefasto de nossa herança escravista que as elites brancas nacionais sempre tentaram relativizar ou esconder.

Para transparecer "modernidade", esforçaram-se por passar uma falsa imagem de que o racismo no Brasil havia sido abolido. Quando na prática, a manutenção de uma sociedade fundada na desigualdade social e racial tem sido o pilar do processo de acumulação capitalista no país, de modo a perpetuar a submissão da população negra a um estado de violência e exploração infinitamente superior ao vivido pela população branca.

A exclusão vivida pelos negros no Brasil se manifesta de forma nua e crua nos dados da violência, onde os negros jovens e pobres são as principais vítimas de homicídios no país, ou por meio do mercado de trabalho, em que são submetidos às piores condições de trabalho e remuneração em ralação aos brancos.

As deploráveis manifestações de racismo que temos presenciado nas redes sociais são manifestações mais exacerbadas - e provavelmente patrocinada por grupos racistas que atuam de forma organizada nestes espaços - de uma realidade mais ampla, qual seja: a de que nosso país jamais alcançou uma democracia racial. Isso porque tal feito dependeria da promoção da igualdade não apenas no plano formal, do direito, mas, fundamentalmente, no plano social, da igualdade de fato.

No entanto, a manutenção da desigualdade social e racial derivada de nossa herança escravista é produto dos interesses das classes dominantes nacionais (brancas) que lucram com a perpetuação deste sistema, perpetuando assim as condições materiais da exclusão da população negra e do próprio racismo.

O racismo, para além de uma manifestação verbal (crime inafiançável pela Constituição Federal), é reflexo de uma estrutura social perversa que se baseia na exploração e na maior vulnerabilidade da população negra e dos mais pobres. E combater o racismo, de um ponto de vista de esquerda, pressupõe enfrentar as desigualdades sociais e de oportunidades - pilares de sustentação da estrutura de perpetuação do racismo no país.

Junto ao enfrentamento das questões estruturais, é preciso que as instituições democráticas e as autoridades competentes atuem de forma mais decidida para inibir e punir as manifestações de racismo, ódio e intolerância nas redes sociais – hoje uma grande plataforma de difusão de crimes racistas no país. Os poderes executivo, legislativo e judiciário devem unir esforços para que os crimes de racismo no país não sejam tolerados e sejam punidos conforme a lei.

Os segmentos progressista e democrático da sociedade precisam intensificar ainda mais a luta contra o racismo, enquanto parte indissociável da luta contra a desigualdade e o conservadorismo. É preciso dar um basta à covardia dos grupos reacionários de direita responsáveis pela disseminação destas campanhas de ódio nas redes sociais.

Disso depende o fortalecimento da democracia brasileira e a construção de um Brasil mais igualitário, justo e solidário. Um país sem racismo!

Racistas e fascistas não passarão!

 

Sala das Sessões, 04 de novembro de 2015.

Ivan Valente
Deputado Federal, PSOL/SP

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